O Projeto Mulheres Arquivadas foi ao encontro da artista Bru Novais em seu ateliê. Entre gavetas abertas, trabalhos antigos e novas produções, percorremos diferentes momentos de sua trajetória e conversamos sobre os processos que atravessam sua prática: a construção de imagens, a memória da infância, a fabulação de outros mundos, os rituais, a espiritualidade, a sala de aula, a aquarela e as formas como corpos e existências podem se transformar.
A visita ao ateliê foi também uma maneira de olhar para o trabalho a partir de seus vestígios e de seus processos. Mexemos em gavetas, revisitamos imagens e trabalhos de diferentes períodos, aproximamos obras antigas de pesquisas mais recentes e acompanhamos algumas das referências que alimentam seu imaginário — imagens encontradas, sonhos, contos de fadas, fábulas, leituras, anotações e acontecimentos que, como a própria artista conta, podem chegar ao trabalho pelo acaso.
Na conversa, a infância apareceu não apenas como lembrança, mas como um território de invenção. Bru fala sobre a necessidade de “inventar as imagens que me faltaram” e sobre a fabulação como possibilidade de especular outras existências para aqueles que tiveram uma infância desviada da hegemonia. Inventar mundos quando o mundo não parece caber torna-se, assim, um procedimento artístico e também uma forma de reordenar imagens, experiências e narrativas.
Também falamos sobre ritual e espiritualidade, sobre os espaços “outros” que se sobrepõem aos espaços instituídos e sobre a relação entre disciplina, método, acaso e escuta. Em sua prática, essas dimensões se encontram com a experiência de formação e com o interesse pela possibilidade de deformar aquilo que nos forma, reencaixar partes e criar novas maneiras de existir.
É nesse emaranhado de imagens, corpos, matérias, memórias e modos de existência que aparece a noção de ecologia queer, conceito que passou a nomear, a partir de 2023, algo que já atravessava a pesquisa da artista havia anos. Entre mutabilidade, mutualismo, compostagem, submersão, orifícios, portais e a figura do monstro, Bru encontra formas de pensar a dissolução dos binarismos e a criação de existências que escapam às categorias fixas.
Após a visita, enviei algumas perguntas para Bru. Confira abaixo:
M.A: Uma das questões que percebemos ao olhar para seu trabalho e também para o discurso dele, é o papel da infância na concepção e elaboração dele. Gostaria de saber qual é o papel da sua infância no imaginário do seu trabalho?
Bru: Eu busco com meu trabalho inventar as imagens que me faltaram. Acredito que a fabulação especula outras existências para todas as pessoas que tiveram uma infância desviada da hegemonia. Inventar mundos, quando o mundo não parece caber, é um procedimento que me acompanha. E que percebo vir desse lugar da minha própria infância, mas que noto também no pensamento-método de outras dissidências artísticas. No fundo é sempre uma reelaboração dali, do que se passava naqueles quintais. E a gente vai encontrando meios de reordenar essas imagens, criar novas e dar outras narrativas para isso.
M.A: Conversamos muito sobre a imagem, sobre suas relações primeiras e com a construção de imagens de paisagens, novas imagens, novos corpos, seres. Gostaria que contasse como surgem as imagens dos seus trabalhos?
Bru: Tenho uma espécie de banco de imagens, não muito organizado, mas suficientemente funcional. Uma coleção de possíveis referências, diretas e indiretas. Que podem vir da internet, de impressos, de álbuns de fotografias. Mas que também se misturam com sonhos, contos de fadas e fábulas que ficaram no meu imaginário, ou ainda leituras que estou fazendo no momento. Algumas vezes elas passam para cadernos de desenho e anotações. Outras vezes vão direto para a tela ou para o barro. Tenho me interessado em deixar também o acaso e processos de aleatoriedade trabalharem junto comigo. Usando oráculos ou mesmo fazendo com as coisas que me chegam nas surpresas. Desse apanhado, puxo alguma coisa que começa e que vou organizando no trabalho. Aproximando outras imagens que aquela me suscita. Sobrepondo-as, abrindo janelas dentro de janelas, ou ainda trabalhando na relação entre palavra e imagem. Olhando e ouvindo o que o trabalho pede. E buscando deixar espaços abertos, que são possibilidades de leituras transversais.
M.A: Um termo que ficou marcado em nossa troca foi a palavra ritual, ritualizações. Desde seus primeiros trabalhos, essa perspectiva metafísica (?), espiritual (?) aparece no trabalho. Como você percebe a presença desses signos e como eles aparecem no trabalho?
Bru: Esse espiritual me acompanha desde muito cedo. Seja nas magias e oráculos, seja na vivência de muitos anos dentro de terreiro. Ali fiz minhas iniciações e pude me desenvolver e aprender. Como muito do que faço no meu trabalho é atravessado pela minha experiência pessoal, com os rituais não seria diferente. Desde o começo da produção, figuras e simbologias desse contexto aparecem na minha obra. Acredito que há um interesse por uma ideia, que posteriormente fui entender naquilo que Foucault chama de heterotopia — esses espaços outros que existem dentro de espaços já instituídos. O atravessamento desses planos, a existência concomitante dessas formas de vida vão se assentando. Mas não só isso. Entendo que esse mundo dentro de mundo está também na fabulação daquela criança desviante que comentei. Um faz-de-conta enquanto método. Porque ritual tem disciplina. Tem metodologia. Tem passo a passo. Mas tem também a abertura ao acaso. E tem escuta e presença de outras existências. Seja magisticamente. Seja mesmo nos rituais do cotidiano. Nas marcas de transições etárias, por exemplo. E daí juventude e espiritualidade se encontram em transição.
M.A: Sua prática técnica foi muito marcada pelo uso da aquarela, assim como a sala de aula foi definidora também das suas proposições artísticas. Conta um pouco sobre esses dois marcadores na sua trajetória.
Bru: Entendo que desde sempre me interesso por como somos/fomos formados, e consequentemente, como podemos nos deformar. Olhar e fazer com les desajustades. Reencaixar nossas partes e criar novas formas de existir. Quando vivi como professora por anos dentro de sala de aula, muito rapidamente aquele espaço se misturou com meu ateliê. E esse olhar para uma formação desviante constituiu parte da minha produção em trabalhos que ressignificavam os elementos da escola. A aquarela, por sua vez, está presente nesse imaginário. Nas ilustrações de livros infantis. Nos manuais, cartilhas, enciclopédias. Nas catalogações e estudos científicos. Então, trabalhar com essa técnica funcionava bem com as imagens que eu produzia, além de trazer um tom doce para assuntos ácidos que atravessavam esses trabalhos.
M.A: Por fim, um conceito que organiza e articula seu trabalho é a “ecologia queer”. O que é esse conceito e como ele se aplica ao seu trabalho?
Bru: Foi só em 2023, na ilha de Itaparica que conheci o termo — que mistura estudos feministas ecológicos com a teoria queer. Encontrar esses escritos foi encontrar comigo mesma e com um grupo. Perceber que aquilo que me atravessava desde o princípio, em 2013, tinha nome, embora residisse na potência do inominável, o que me interessava. Vou usar de uma das últimas páginas da minha dissertação (não publicada até o momento), onde analiso meu trabalho a partir de um glossário ecologicamente queer/cuir (publicado na revista Antennae, n.64, de 2024). Ali comento que vinha fazendo uma pesquisa incorporada (embodied research), e que não só a experiência física, mas também as leituras espirituais da palavra em português, ganham corpo e sentido. Notei que a ideia de emaranhamento com derrubada dos binarismos, e oresgate de mitos andróginos e desejantes, também me acompanhava. Que os buracos e a submersão são lugares de interesse, experimentação e criação, pensando em orifícios e portais, e na abertura e dissolução corporais junto d’água. Que noções de compostagem, mutabilidade e mutualismo, me chegavam nas vidas trans-específicas, nas flexibilidades que abraçam as mudanças e nas relações em coletividade. Que a figura do monstro é companheira próxima nos trabalhos que realizo, e na vivência trans. Que ele está ligado ao professor, que demonstra. E que essas demonstrações nos ajudam na ruptura de categorias e na diluição de fronteiras. Elas nos aproximam de presenças impuras, reconhecem e celebram as monstruosidades a partir do abjeto, como torção de um termo pejorativo em uma qualidade de ensino que aprende estranhando/cuirizando.
Bru Novaes trabalha entre artes visuais, literatura e educação. Sua prática acontece, sobretudo, por meio da palavra e do desenho, como instalação, publicação e processos de encontro, reimaginando formações, subjetividades, agenciamentos e alteridades entre gêneros e espécies.
É bolsista CAPES no Mestrado em Artes Visuais na USP e professora na EMIA Santo André — escola de iniciação artística. Apresentou exposições individuais em programas públicos como os do Paço das Artes (2019) e do Centro Cultural São Paulo (2020). Participou de programas de residências como os do Instituto Sacatar, em Itaparica-BA (2023), o da fábrica de materiais de desenho Viarco, em Portugal (2022) e Casco Pós-Balsa, na represa Billings (2025). Publicou livros como Alugo para rapazes (2018), Diário 366 (2021) e pique—esconde (2024). Sua obra integra acervos como os do Museu da Diversidade Sexual de São Paulo, do MAR Museu de Arte do Rio de Janeiro e da Biblioteca Instituto Moreira Sales.


